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O Romantismo Frio de Caspar David Friedrich

Às limitadoras associações estilísticas, sobrepor-se-á, indubitavelmente, a evidência do conceito romântico de intimidade e tendência para o infinito que a obra de Caspar David Friedrich (1774-1840) anuncia. A sua disposição melancólica revela uma idiossincrasia moldada pela frieza morfológica em que se movimenta, impelindo-o o seu ascetismo para o confronto com uma liberdade de criação “comprometida” pelo seu entendimento interior. É nesta subjectividade introvertida e solitária que se mostra um sentimentalismo concomitante com o “(…) crédito de sublimidade, de mistério, de incógnito, de infinito, que são as próprias categorias do romântico, para Novalis(1), que o conheceu” (França, 2006: 67).

Em Friedrich, a consciência de um absoluto inatingível encontra eco na nostalgia infinita do Romantismo. É na natureza silenciosa e enigmática que o homem se vê como contemplador privilegiado. Nesta poética ontológica, que eleva a paisagem a transcendental, encontramos raízes de um idealismo absoluto hegeliano: a natureza como experiência estética capaz de conduzir-nos à unidade. Uma tão sublime harmonia contrasta com a carência dessa relação no mundo dos homens, tensão que herda a ambivalência da reflexão romântica.

Profundos traços de um romantismo alemão manifestam-se na obra de Friedrich: a elevada sensibilidade para a natureza; a crença na correspondência entre natureza e mente; a paixão pelo equívoco, o indeterminado, o obscuro e longínquo (objectos no nevoeiro, um fogo distante na escuridão, a fusão das nuvens e das montanhas); a celebração solipsista; a enfatização da morte (Koerner, 2009). A atmosfera sombria dos seus quadros advém de uma profunda educação religiosa – segundo os preceitos luteranos – e de uma vida marcada por dolorosas perdas familiares(2). A ideia da morte, várias vezes reiterada pela utilização simbólica de elementos pictóricos, é uma aliteração desejada, e único caminho para a redenção. A utilização de elementos nostálgicos nos seus quadros é uma constante: brumas, árvores secas, dramáticos efeitos de luz, ruínas, um barco afastando-se da praia (evocação do mito de Caronte), cemitérios sombrios, entre outros. Friedrich demonstra uma “(…) inclinação fanática para a solidão e melancolia [...], parecendo circunscrever, deliberadamente, a sua esfera de vida a uma tranquilidade estabilizadora do seu mundo interior” (Zhang, 2003: 177 [trad. nossa]).

As tensões políticas e sociais atormentam o pintor, num quadro obscurecido pela agressão das tropas napoleónicas e pelo “mundo artificial” que as Luzes se encarregam de moldar (Hill, 2003). Uma civilização que já encontrara oposição nas ideias de Rousseau e que vai adquirindo contornos hobbesianos. A tal redução positivista responde Friedrich com novos impulsos espirituais que traduzem um profundo sentimento de desilusão, recorrendo, ao mesmo tempo, a temas do folclore nórdico e a símbolos de nacionalismo, num assombro de afirmação patriótica. Uma lealdade à coroa sueca(3) “(…) provavelmente inspirada pelo pietismo e pela política específica de Gustav” (Koerner, 2009: 60). Contra o Iluminismo Francês e a destruição napoleónica da tradição, Friedrich invoca um passado medieval que legitima lugares e povos pelo fio particular da história(4) .

O romantismo frio de Friedrich levá-lo-á à reclusão e meditação espiritual, representando o seu panteísmo a ubiquidade de Deus nos vários elementos da natureza. A tela é medium que evoca o divino e seu eremitério. A personalidade de carácter solipsista revela-se pela voz do pintor:

Tenho de ficar só, e saber que o estou, para poder contemplar e sentir profundamente a natureza; tenho de me render ao que me rodeia, fundir-me com as minhas nuvens e rochedos, de forma a poder ser quem sou. Preciso de solidão para dialogar com a natureza. Em tempos, passei uma semana inteira em Uttewald, entre rochedos e abetos, e durante esse tempo não encontrei uma única alma viva: é verdade que não recomendo este método a ninguém – foi até demais para mim; de forma involuntária, as trevas penetram na alma. Estes factos deverão ser suficientes para provar que a minha companhia não será agradável para qualquer ser humano (Friedrich cit. por Zhang, 2003: 177 [trad. livre nossa]).

Na obra German Romantic Painting(5), William Vaughan sugere que a melancolia patente na arte de Friedrich deva ser analisada à luz do Zeitgeist e não apenas retirada da leitura da sua personalidade nostálgica: na época, “(…) a melancolia estava em voga” (Vaughan cit. por Zhang, 2003: 179). Apesar da verdade que encerra tal referência, Friedrich conseguiu na sua arte uma consumada união entre “real” e “ideal”, marca indelével de uma poesia filosófica que Herder e Goethe consolidariam como posição dominante no romantismo alemão.

1 Georg Philipp Friedrich von Hardenberg, conhecido pelo pseudónimo Novalis, foi um importante representante do romantismo alemão (Cf. Wikipédia [em linha]. Acedido em 31 de Março de 2010 em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Novalis).
2 A perda mais marcante terá sido a do seu irmão Johann Christoffer que, segundo alguns relatos, morreu afogado num lago, tentando salvar o próprio Friedrich (Cf. Wikipédia [em linha]. Acedido em 31 de Março de 2010 em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Caspar_David_Friedrich).
3 Greifswald, terra natal de Caspar David Friedrich, à data do seu nascimento, fazia parte do reino sueco, sendo mais tarde incorporada no domínio da Prússia. (Cf. Encyclopedia [em linha]. Acedido em 11 de Abril de 2010 em: http://www.encyclopedia.com/topic/Greifswald.aspx).
4 Para reforçar esta ideia torna-se importante a obra Osnabrückische Geschichte de Justus Möser (1720-1794), jurista e sociólogo alemão (Koerner, 2009).
5 (Zhang, 2003).

Bibliografia

França, J.-A. (2006). História da Arte Ocidental 1750-2000 (2ª ed.). Lisboa: Livros Horizonte.
Hill, D. (2003). Introduction. In D. Hill (ed.), History of German Literature: Literature of the Sturm und Drang, Vol. 6, (pp. 1-46). Suffolk: Boydell & Brewer.
Koerner, J. L. (2009). Caspar David Friedrich and the Subject of Landscape (2ª ed.). London: Reaktion Books.
Zhang, H. (2003). The Lanscape of Solitude. Encountering Images of Contemplation in Western Landscape Painting. Acedido em 2 de Abril de 2010, em: http://etd.lib.ttu.edu/theses/available/etd-06262008-31295017074906/unrestricted/31295017074906.pdf

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September 7, 2010 às 8:25 pm

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